A ascensão do Conilon certificado no Brasil

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A ascensão do café Conilon certificado no Brasil reflete uma combinação de fatores econômicos, ambientais e de mercado que têm impulsionado a valorização dessa variedade de café, tradicionalmente vista como menos nobre em comparação ao Arábica. O Conilon, também conhecido como Robusta, é uma espécie de café (Coffea canephora) que se adapta bem a climas mais quentes e altitudes mais baixas, sendo amplamente cultivado em estados como Espírito Santo, Rondônia, Bahia e Minas Gerais. Nos últimos anos, a certificação do Conilon tem ganhado destaque como um mecanismo para agregar valor ao produto, atender às demandas por sustentabilidade e conquistar novos mercados.

Historicamente, o Conilon foi utilizado no Brasil principalmente para blends de café solúvel e torrefação industrial, devido ao seu sabor mais forte e menor complexidade em relação ao Arábica. No entanto, a partir da década de 2010, mudanças no mercado global e a busca por práticas agrícolas mais sustentáveis começaram a transformar essa percepção. A certificação, que pode incluir selos como Rainforest Alliance, e Fair Trade ou certificações específicas de qualidade, tem sido um divisor de águas. Esses selos garantem que o café é produzido seguindo padrões ambientais, sociais e econômicos, o que atrai consumidores conscientes e eleva o preço no mercado.

O Espírito Santo, maior produtor de Conilon do país, tem liderado esse movimento. Dados recentes apontam que a produção de Conilon certificado no estado cresceu significativamente, com investimentos em tecnologia agrícola, como irrigação e manejo sustentável, melhorando a produtividade e a qualidade dos grãos. Em 2023, por exemplo, estimativas indicaram que o Brasil produziu cerca de 55 milhões de sacas de café, sendo o Conilon responsável por aproximadamente 20% desse total, com uma parcela crescente sendo certificada.

Demanda internacional: Países importadores, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, têm exigido cada vez mais cafés certificados, seja por questões de rastreabilidade ou por compromissos com a sustentabilidade. O Conilon certificado atende a essa necessidade, ganhando espaço em nichos antes dominados pelo Arábica.
Mudança climática: O Conilon é mais resistente a condições adversas, como altas temperaturas e secas, o que o torna uma alternativa viável em um cenário de aquecimento global. Enquanto o Arábica sofre com perdas em algumas regiões, o Conilon tem se consolidado como uma opção resiliente.
Qualidade aprimorada: Avanços no beneficiamento pós-colheita, como a fermentação controlada e a secagem seletiva, elevaram a qualidade do Conilon, permitindo sua entrada no mercado de cafés especiais. Cafés Conilon com notas sensoriais acima de 80 pontos (segundo a escala da Specialty Coffee Association) já são realidade, algo impensável há algumas décadas.
Sustentabilidade e economia: A certificação muitas vezes está atrelada a boas práticas agrícolas, como o uso eficiente de água, redução de agrotóxicos e melhoria das condições de trabalho. Isso não só atende às exigências ambientais, mas também reduz custos a longo prazo e aumenta a competitividade dos produtores brasileiros.

A ascensão do Conilon certificado tem gerado impactos positivos tanto para os produtores quanto para a economia cafeeira brasileira. Pequenos e médios agricultores, que antes vendiam seu café a preços baixos no mercado commodity, agora conseguem melhores margens de lucro. Além disso, a valorização do Conilon contribui para diversificar a matriz exportadora do café brasileiro, reduzindo a dependência do Arábica.

No entanto, há desafios. A expansão da certificação exige investimentos em capacitação, infraestrutura e acesso a financiamentos, o que nem todos os produtores conseguem arcar. Além disso, o preconceito contra o Conilon como um café “inferior” ainda persiste em alguns círculos, exigindo esforços contínuos de marketing e educação do consumidor.

Com o aumento da demanda por cafés sustentáveis e a adaptação às mudanças climáticas, o Conilon certificado tem tudo para continuar crescendo. Projetos como o “Conilon de Qualidade”, promovido por cooperativas e instituições como o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), sinalizam um futuro promissor. A expectativa é que, até 2030, o Brasil consolide sua posição como líder na produção de Conilon certificado, equilibrando quantidade, qualidade e responsabilidade ambiental.

Em resumo, a ascensão do Conilon certificado no Brasil é um exemplo de como a inovação e a sustentabilidade podem transformar um produto tradicional em um ativo estratégico no mercado global, beneficiando produtores e reforçando a reputação do país como potência cafeeira.

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